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Voz de “Total Eclipse of the Heart” marcou gerações com uma das baladas mais famosas dos anos 80

Bonnie Tyler morreu aos 75 anos e levou com ela uma daquelas vozes que não precisam de apresentação. Bastava ouvir o primeiro rasgo rouco, dramático e quase desesperado para reconhecer a cantora galesa que transformou “Total Eclipse of the Heart” em um dos grandes hinos sentimentais dos anos 80.

A artista, nascida Gaynor Hopkins em 8 de junho de 1951, morreu em 8 de julho de 2026, em um hospital em Portugal, país onde vivia parte do ano, no Algarve. Segundo comunicado publicado em seu site oficial, a morte aconteceu de forma inesperada, em decorrência da doença que vinha sendo tratada. Em maio, Bonnie havia passado por uma cirurgia intestinal de emergência em Faro, foi colocada em coma induzido e, embora tenha saído do coma, seguia muito debilitada e em terapia intensiva.

É uma despedida que parece estranhamente coerente com sua música mais famosa. Bonnie Tyler será lembrada para sempre por uma canção sobre excesso, perda, paixão e escuridão. “Total Eclipse of the Heart”, lançada em 1983, não era apenas uma balada romântica. Era quase uma ópera pop. Tinha o exagero de Jim Steinman, o compositor associado ao universo grandioso de Meat Loaf, e tinha a voz de Bonnie, que parecia cantar cada verso como se estivesse diante do fim do mundo.

a - DudunaFesta/ Divulgação - DudunaFesta/ Divulgação

Bonnie Tyler em apresentação no Brasil

Imagem: DudunaFesta/ Divulgação

A música chegou ao primeiro lugar nas paradas do Reino Unido e dos Estados Unidos, virou sucesso em vários países e ganhou um clipe gótico, estranho e inesquecível, exibido à exaustão nos primeiros anos da MTV. Havia vento, corredores, olhos brilhando, alunos em clima de pesadelo romântico e Bonnie no centro de tudo, como uma heroína melodramática de cabelo armado e voz ferida. Quatro décadas depois, a canção continuava voltando à vida: em karaokês, trilhas, memes, festas, eclipses solares e playlists de gente que talvez nem tivesse nascido quando ela foi lançada.

A voz rouca, aliás, nasceu de um acidente de percurso. Depois de uma cirurgia para retirar nódulos nas cordas vocais, em 1977, Bonnie não descansou como deveria. Gritou durante a recuperação, prolongou o processo de cicatrização e ganhou aquele timbre áspero que poderia ter sido um problema, mas virou assinatura. Em vez de suavizar a diferença, ela fez dela uma marca.

Antes de “Total Eclipse of the Heart”, Bonnie já havia conhecido o sucesso com “Lost in France” e, principalmente, “It’s a Heartache”, uma canção de espírito country-rock que a levou às paradas internacionais no fim dos anos 1970. Mas foi ao se aproximar de Jim Steinman que sua carreira encontrou o tamanho teatral que parecia esperar por ela. Ele viu naquela voz algo que ainda não havia sido completamente explorado. Tinha razão.

Depois vieram outros momentos importantes. “Holding Out for a Hero”, lançada na trilha de “Footloose”, virou outro clássico absoluto, desses que atravessam gerações porque parecem pedir uma cena de corrida, coragem ou redenção. Bonnie também gravou a primeira versão de “The Best”, antes de Tina Turner transformar a música em um de seus maiores hinos. A própria Bonnie admitiria, com a franqueza que também a tornou querida, que Tina fez melhor.

Essa simplicidade talvez explique parte de sua permanência. Bonnie Tyler tinha uma voz enorme, mas nunca pareceu se comportar como alguém inalcançável. Nas entrevistas, falava de carreira, casamento, fracassos, sucessos e sustos com uma naturalidade rara em artistas associados a canções tão monumentais. Em 2023, foi nomeada MBE por seus serviços à música, reconhecimento oficial para uma carreira que já estava consagrada havia muito tempo pelo público.

A relação com o Brasil teve uma curiosidade especial. Embora suas músicas fossem conhecidas por aqui há décadas, Bonnie demorou muito a se apresentar no país. A passagem mais recente — e, ao que tudo indica, a grande lembrança brasileira de seus shows — aconteceu em novembro de 2022, quando veio com uma turnê sul-americana adiada pela pandemia. Foram oito apresentações no Brasil: Tubarão, Florianópolis, Curitiba, São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Goiânia e Salvador. Depois, a cantora seguiu para Montevidéu, no Uruguai.

Para o público brasileiro, havia ainda uma memória afetiva extra: em 1987, Bonnie gravou com Fábio Jr. “Sem Limites pra Sonhar”, versão de “Reaching for the Infinite Heart”. A parceria ajudou a aproximar sua voz de uma geração que já a conhecia das rádios, mas passou a associá-la também ao repertório romântico nacional. Era Bonnie Tyler entrando, de outro jeito, na trilha sentimental do Brasil.

Nos últimos anos, ela continuava ativa. Lançou “The Best Is Yet to Come” em 2021, mantinha agenda de shows e ainda parecia disposta a cantar os grandes sucessos sem tratá-los como peso. Dizia não se cansar de “Total Eclipse of the Heart”, talvez porque entendesse que algumas músicas deixam de pertencer apenas ao artista. Passam a pertencer às pessoas.

Bonnie Tyler deixa o marido, Robert Sullivan, com quem era casada desde 1973, e uma obra marcada por intensidade, teatralidade e permanência. Nem todo artista tem uma música que atravessa décadas sem envelhecer. Menos ainda conseguem transformar uma voz ferida em destino. Bonnie conseguiu as duas coisas.

No fim, seu maior sucesso continua parecendo uma despedida que ninguém queria ouvir agora. Um eclipse total do coração, sim. Mas também uma luz que insiste em voltar.

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