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Uma notícia impactante como a do terremoto na Venezuela tem a capacidade de mobilizar leitores por dias, às vezes por semanas. Há, porém, um paradoxo no jornalismo das grandes tragédias. Elas comovem o mundo nos primeiros dias e depois, inevitavelmente, cedem espaço para outras notícias.
Para quem lê, a história termina. Para quem sobreviveu, ela está apenas começando. É quando se trava a busca pelos desaparecidos, a reconstrução das cidades e também a disputa pelas narrativas políticas e pelos números. É por isso que esta edição da Cercanías volta aos terremotos da Venezuela para oferecer uma série de leituras sobre a tragédia.
No centro estão as dúvidas sobre o número de afetados. O regime venezuelano divulga balanços oficiais, mas eles vêm sendo questionados por especialistas, organizações independentes e parte da imprensa internacional. Mais do que uma discussão estatística, trata-se de compreender a dimensão real de uma tragédia que atingiu um país já profundamente fragilizado.
O regime afirma que os mortos somam mais de 5.000. Especialistas em gestão de desastres, porém, alertam que talvez nunca seja possível conhecer o número real de vítimas. A estimativa de desaparecidos também é considerada subdimensionada diante do colapso de edifícios e bairros inteiros. Enquanto isso, em diversas áreas atingidas, grupos da sociedade civil continuam trabalhando entre os escombros na busca por corpos e desaparecidos.
Essa disputa em torno dos números rapidamente ganhou dimensão política. Em reportagem publicada pelo New York Times, o jornal mostra como estimativas produzidas por pesquisadores independentes passaram a ser utilizadas por veículos de comunicação, integrantes da oposição e organizações civis para questionar se a dimensão da tragédia não estaria sendo minimizada pelas autoridades.
O governo rejeita essa leitura. Como destaca The Guardian, a líder interina, Delcy Rodríguez, vem defendendo a atuação das autoridades e afirma que milhares de funcionários públicos e equipes de resgate foram mobilizados desde as primeiras horas após os terremotos.
Há ainda uma reflexão interessante proposta pelo cientista político Javier Corrales em artigo publicado no Journal of Democracy. Segundo ele, grandes desastres não criam governos eficientes ou ineficientes; apenas tornam visível aquilo que eles já eram. Ao analisar as primeiras semanas após os terremotos, Corrales reúne relatos sobre as dificuldades na coordenação dos resgates, como as barreiras enfrentadas por voluntários para acessar áreas atingidas e um aparato estatal cuja capacidade de resposta passou a ser objeto de intenso escrutínio.
Talvez a leitura mais importante desta edição seja, porém, a análise publicada no El País por Luz Mely Reyes, uma das mais respeitadas jornalistas venezuelanas e fundadora do site independente Efecto Cocuyo. Para ela, o terremoto não apenas destruiu bairros e infraestrutura: expôs de forma dramática a fragilidade do regime venezuelano. Nas primeiras 48 horas após os tremores, escreve, famílias recorriam às redes sociais para pedir socorro enquanto voluntários tentavam organizar os resgates diante de um aparato público incapaz de responder à dimensão da tragédia.
Luz Mely diz que remover os escombros será apenas parte do desafio. A reconstrução da Venezuela exigirá também reconstruir suas instituições. Por isso, Luz Mely apresenta propostas formuladas por intelectuais e especialistas venezuelanos para a criação de uma Junta de Emergência.
Latinas
EXPOSIÇÃO
Quem estiver em Buenos Aires nesse mês de férias deve aproveitar e visitar, no Malba (Museo de Arte Latino Americana de Buenos Aires), a mostra do artista norte-americano Dan Flavin. Ele encheu as galerias de esculturas luminosas realizadas com tubos fluorescentes. É um conjunto espetacular. Mais informações aqui.
LIVRO
Quando a escritora mexicana Alma Guillermoprieto lança algo, vira leitura obrigatória. Há décadas reportando e contando em crônicas a América Latina, Guillermoprieto é sempre uma inspiração para os que gostam do tema. O recém-lançado “Esta Improbable Tierra Prometida” trata de caudilhismo, violência, corrupção e desigualdade. Para ter uma ideia geral da obra, vale ler esse ensaio do cubano Leonardo Padura aqui.

