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Psicanálise do Axé: Quando os Terreiros se Tornam Espaços de Escuta, Cura e Reconstrução da Vida

Durante muito tempo, os terreiros de Umbanda e Candomblé foram vistos apenas como espaços religiosos. Entretanto, uma leitura mais atenta revela que esses ambientes também desempenham uma importante função de acolhimento emocional, orientação existencial e reorganização subjetiva para milhares de pessoas. É justamente nesse ponto que surge a proposta da Psicanálise do Axé.

A Psicanálise do Axé é uma abordagem brasileira que procura estabelecer um diálogo entre os saberes da psicanálise e os conhecimentos ancestrais preservados pelas tradições afro-brasileiras. Seu objetivo não é transformar o terreiro em consultório, nem substituir a religião pela psicologia. A proposta consiste em compreender como os rituais, a ancestralidade, o pertencimento comunitário e a experiência espiritual atuam na constituição da subjetividade humana.

Nos terreiros, homens e mulheres chegam carregando dores que muitas vezes não encontram espaço para serem expressas. Problemas familiares, lutos, abandono, discriminação racial, crises afetivas e conflitos internos aparecem diariamente nas rodas de conversa, nos atendimentos espirituais e nos momentos de orientação conduzidos por sacerdotes e sacerdotisas. Nesses contextos, a palavra ocupa lugar fundamental, aspecto que aproxima a experiência religiosa de alguns princípios clássicos da escuta psicanalítica. A psicanálise, desde seus fundamentos, reconhece a importância da fala como instrumento de elaboração dos sofrimentos psíquicos.

A Psicanálise do Axé propõe que o Axé seja compreendido não apenas como força sagrada, mas também como potência de reconstrução da vida. Quando uma pessoa encontra acolhimento em sua comunidade religiosa, reconhece sua ancestralidade e fortalece seus vínculos coletivos, ela frequentemente desenvolve novos recursos para enfrentar seus conflitos internos. Nesse sentido, o terreiro torna-se um espaço de reorganização simbólica e fortalecimento da identidade.

Outro aspecto relevante é o combate ao preconceito. Durante séculos, as religiões afro-brasileiras sofreram perseguições e tentativas de silenciamento. A Psicanálise do Axé busca valorizar os saberes produzidos nesses espaços, demonstrando que os terreiros são também territórios de produção de conhecimento, memória e cuidado coletivo.

A obra Psicanálise do Axé apresenta reflexões sobre essa interface entre espiritualidade afro-brasileira, cultura, ancestralidade e escuta do sofrimento humano. O livro tem sido utilizado por sacerdotes, pesquisadores, estudantes e leitores interessados em compreender novas formas de pensar a saúde emocional a partir das experiências construídas nos terreiros.

Os interessados em conhecer a obra podem encontrá-la diretamente no portal da editora responsável por sua publicação:

CERE Publicaçõeshttp://www.cerepublicacoes.com.br

Em um período marcado pelo aumento do sofrimento emocional e pela busca de pertencimento, a Psicanálise do Axé apresenta uma reflexão importante: talvez a cura não esteja apenas no indivíduo isolado, mas também na força dos laços comunitários, da ancestralidade e do reconhecimento da própria história.

Dr. Kael Chidi
Pesquisador da Psicanálise do Axé e das Relações entre Subjetividade, Cultura e Ancestralidade Afro-Brasileira.

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