O governo do Paraguai reagiu nesta sexta-feira, 31, às declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a Guerra da Tríplice Aliança e cobrou do Brasil a devolução de canhões, documentos e outros troféus do conflito.
Segundo comunicado do Ministério das Relações Exteriores paraguaio, o vice-presidente Pedro Alliana e o chanceler Rubén Ramírez Lezcano receberam, em Assunção, o embaixador brasileiro José Marcondes, a quem entregaram uma nota oficial expressando “desagrado” e “absoluto repúdio” às declarações de Lula.
Na avaliação do governo paraguaio, as falas do presidente brasileiro apresentam uma visão distorcida de um episódio considerado central para a história nacional. A chancelaria afirmou que acontecimentos que marcaram profundamente os dois países devem ser tratados com “responsabilidade, respeito recíproco e espírito de reconciliação”.
Durante o encontro, as autoridades paraguaias também propuseram medidas para, segundo o comunicado, “fechar definitivamente as feridas” da guerra. Entre elas estão a devolução dos canhões Presidente López e Cristiano, além de outros troféus militares e documentos históricos que permaneceram no Brasil após a derrota paraguaia.
A reação ocorre uma semana depois de Lula mencionar a Guerra do Paraguai durante um discurso em Jacareí, no interior de São Paulo. Ao defender investimentos nas Forças Armadas, o presidente afirmou que o Brasil é um país pacífico, mas que não poderia esquecer conflitos históricos como a guerra travada contra o Paraguai no século XIX.
Segundo relatos de integrantes da diplomacia brasileira, o embaixador José Marcondes explicou às autoridades paraguaias o contexto da fala de Lula e ressaltou que “em nenhum momento houve intenção de ofender o Paraguai”. Diplomatas também destacaram a relação de proximidade entre os dois países e lembraram que os governos Lula buscaram fortalecer a cooperação bilateral ao longo dos últimos anos.
Na quarta-feira, 29, a Câmara dos Deputados do Paraguai já havia emitido uma declaração oficial de repúdio à fala de Lula sobre a Guerra da Tríplice Aliança. O tema é particularmente sensível, visto que, como resultado do conflito, o Paraguai perdeu quase um quarto de seu território e sofreu uma grave crise demográfica – estima-se que a Guerra do Paraguai tenha matado cerca de 480 mil pessoas entre 1864 e 1870, em um universo de até 1,3 milhão de habitantes, o que faz do país o Estado moderno com a maior perda de população causada por um conflito.

