A maioria das escolas brasileiras não permite que os alunos utilizem a inteligência artificial em atividades educacionais; o uso é liberado em apenas 37%. Paralelamente, as discussões com os pais sobre os impactos das tecnologias digitais na saúde mental dos estudantes cresceram significativamente: 80% trataram desse tema no último ano, ante 62% do anterior.
Os resultados fazem parte da pesquisa TIC Educação 2025, divulgada nesta terça (4). O estudo é realizado anualmente desde 2010 pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, que reúne representantes do governo e da sociedade civil. Para essa edição, foram realizadas, de agosto de 2025 a abril de 2026, entrevistas telefônicas com gestores de 2.404 escolas públicas e particulares, rurais e urbanas, que oferecem ensino fundamental e médio.
A pesquisa evidencia a ampliação do debate, nas escolas, sobre as tecnologias digitais, em um contexto que envolveu a aprovação do ECA Digital (legislação com regras para a proteção de crianças e adolescentes na internet, aprovada em setembro de 2025) e a aplicação da lei que proibiu o uso de celulares por alunos em ambiente escolar (de janeiro de 2025).
Outro fator preponderante foi a disseminação da inteligência artificial entre os estudantes –no ano passado, a TIC Educação já havia mostrado que 7 em cada 10 alunos do ensino médio admitiam que usavam a IA para fazer trabalhos escolares.
De acordo com a nova edição da pesquisa, a liberação do uso de IA pelos alunos é maior entre as escolas estaduais; são 47%, enquanto nas municipais ocorre em 35%, e nas privadas, em 31%. A permissão se amplia nas séries mais avançadas: de 26% até o 5º ano, sobe para 42% até o 9º e 52% até o ensino médio. Somente 22% dos gestores disseram que a escola já possui um guia de orientações sobre o uso de IA.
Por outro lado, a Inteligência Artificial tem sido largamente utilizada pelos gestores para tarefas administrativas, como na produção de slides (83%), convites e avisos (80%) e relatórios (64%). Em menor escala, é utilizada para analisar dados sobre o desempenho dos alunos e práticas pedagógicas (51%).
A maioria das escolas (65%) realizou projetos sobre educação midiática, voltados a um uso mais crítico e consciente das mídias e tecnologias digitais. Entretanto, o estudo mostra que o tema ainda não está consolidado nos currículos. Só em 24% os projetos acontecem pelo menos uma vez por semana. Em 33% das escolas, ocorrem semestralmente, e em 10%, anualmente.
As escolas que se voltam à educação midiática apontam uma série de desafios para a realização desses projetos. Entre eles, 75% dizem que há baixa participação das famílias, 64%, que faltam materiais e recursos educacionais de apoio aos professores e 55% reclamam de falta de tempo para cumprir todos os conteúdos previstos no currículo escolar.
Nas reuniões com os pais, além de tratar dos impactos das tecnologias digitais na saúde mental dos estudantes, a maioria das escolas também abordou ações relacionadas a casos de cyberbullying, discriminação, vazamento de imagens e outras situações ocorridas com alunos na internet –esses temas foram abordados por 75% das escolas em 2025, ante 61% em 2024.
A pesquisa mostra ainda que mais da metade das escolas (51%) proíbe que os alunos levem seus aparelhos celulares. Em 16%, os aparelhos devem ser guardados em locais disponibilizados pela escola, como caixas e armários, e 24% determinam que fiquem armazenados com os alunos, no bolso, mochilas ou outro acessório pessoal.
Daniela Costa, coordenadora da pesquisa, ressalta à Folha que a ampliação do debate sobre o uso de telas na infância e na adolescência nos veículos jornalísticos, no Congresso, no ambiente acadêmico e na sociedade em geral reverberou nas escolas.
“Com a disseminação de informações sobre os riscos para crianças e adolescentes, foram debatidas medidas de mediação do uso, como controle de tempo de tela, idade mínima, controle parental, entre outros aspectos”, afirma. “Havia nestes debates uma relação estreita entre a percepção de riscos e a adoção de estratégias de mediação do uso das tecnologias, baseadas na restrição, no controle e na limitação de acesso.”
Ela aponta que, “como reação a esses debates, as escolas passaram a implementar iniciativas de restrição de dispositivos, de horários e espaços escolares nos quais as tecnologias poderiam ser utilizadas”.
Costa também diz que, nos últimos anos, ficou mais claro para as escolas que elas têm responsabilidade de investir nesses debates e no letramento digital.
Durante as discussões para a aprovação da lei de veto aos celulares nas escolas e do ECA Digital, diz a coordenadora, cresceu o entendimento de que as restrições não seriam suficientes para lidar com os riscos do ambiente digital para crianças e adolescentes, e de que seria necessário integrar conteúdos sobre esses temas nos currículos escolares.
“Especialmente entre 2024 e 2025, foi possível observar um crescimento nos dados sobre discussões realizadas nas escolas a respeito de como implementar iniciativas de educação digital e midiática.”

