InícioEntretenimentoLuiz Carlos Barreto deixa legado essencial ao cinema brasileiro

Luiz Carlos Barreto deixa legado essencial ao cinema brasileiro

Falar de Luiz Carlos Barreto apenas como um dos maiores produtores do cinema brasileiro talvez seja pouco. Barretão, que morreu nesta quarta-feira, aos 98 anos, pertenceu a uma geração que não apenas fez filmes, mas precisou praticamente inventar maneiras de manter o cinema brasileiro vivo, atravessando crises econômicas, mudanças políticas, censura, transformações tecnológicas e períodos em que produzir no país parecia quase um ato de resistência.

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Luiz Carlos Barreto em foto publicada pelo neto, Gabriel

Imagem: Reprodução/Instagram

Sua participação na história começa muito antes dos grandes sucessos de bilheteria. Fotojornalista de formação, Barreto ajudou a transformar a própria imagem do cinema brasileiro ao assumir a fotografia de Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos. Ao abandonar filtros que suavizavam a intensa luz nordestina, criou uma fotografia dura, contrastada e profundamente ligada à paisagem retratada pelo filme. Depois trabalharia também em Terra em Transe, de Glauber Rocha, tornando-se uma figura central daquela geração do Cinema Novo.

Mas foi como produtor que sua influência se tornou ainda maior. Ao lado de Lucy Barreto, fundou a L.C. Barreto e esteve ligado a filmes como A Hora e a Vez de Augusto Matraga, Bye Bye Brasil, Memórias do Cárcere e, sobretudo, Dona Flor e Seus Dois Maridos, fenômeno que levou quase 11 milhões de espectadores aos cinemas. Sua convicção era rara e continua atual: qualidade artística e sucesso popular não precisavam ser inimigos.

Barretão atravessou o Cinema Novo, os anos da Embrafilme, a crise provocada pelo desmonte do cinema nacional e a retomada dos anos 1990. Mais do que sobreviver a todas essas fases, ajudou a construí-las.

Seu maior legado talvez esteja justamente aí. Luiz Carlos Barreto não deixou apenas uma coleção extraordinária de filmes. Deixou uma maneira de pensar o cinema brasileiro como arte, indústria, memória e identidade de um país que precisava — e ainda precisa — se enxergar na própria tela.

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