InícioMundoEuropa rejeita empresa da Fifa e ameaça boicotar Copa do Mundo

Europa rejeita empresa da Fifa e ameaça boicotar Copa do Mundo

A crise entre Uefa e Fifa se intensificou em 30 de julho de 2026, quando a Uefa anunciou que suas 55 federações nacionais poderiam retirar suas seleções de competições da Fifa caso o projeto Fifa Forward Enterprise, que visa concentrar ativos comerciais e permitir investidores privados, avance. A Uefa considera a proposta uma ameaça ao futebol e critica a falta de consulta no processo. A posição europeia recebeu apoio da Concacaf e da AFC, representando 143 das 211 associações da Fifa.

A crise entre Uefa e Fifa ganhou uma nova dimensão nesta quinta-feira, 30. A entidade europeia anunciou que suas 55 federações nacionais vão retirar suas seleções de todas as competições organizadas pela federação mundial caso avance o projeto de criação da Fifa Forward Enterprise (FFE), empresa que concentraria ativos comerciais da entidade e abriria espaço para investidores privados. A relação entre as duas instituições já vinha desgastada por causa de atitudes de Gianni Infantino, presidente da Fifa, na Copa do Mundo de 2026.

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A decisão foi tomada depois de uma reunião emergencial por videoconferência entre dirigentes europeus. Em comunicado, a Uefa declarou que nenhuma seleção nacional do continente participará de competições da Fifa enquanto a proposta estiver em vigor, a menos que o projeto seja abandonado completamente e que sejam apresentadas garantias formais de que a entidade mundial não abrirá sua governança nem seus torneios à propriedade privada.

“Como resultado da discussão de hoje, nenhuma seleção nacional da Uefa participará de qualquer competição da Fifa enquanto essas propostas permanecerem em vigor, a menos que a proposta seja abandonada por completo e que sejam dadas garantias vinculantes de que a Fifa jamais abrirá sua governança ou competições à propriedade privada.”

A ameaça de boicote pode atingir diretamente a Copa do Mundo feminina de 2027, que será disputada no Brasil. As eliminatórias europeias para o torneio têm partidas marcadas para outubro, nos dias 9 e 13, mas a realização dos confrontos também passou a ser colocada em dúvida diante do confronto entre as duas instituições.

O projeto apresentado pela Fifa para criar a Fifa Forward Enterprise, uma companhia avaliada em US$ 20 bilhões que reuniria os principais ativos comerciais da entidade, inclui os direitos da Copa do Mundo, da Copa do Mundo feminina e do Mundial de Clubes.

A proposta prevê a venda de aproximadamente 20% da nova empresa para investidores privados, com expectativa de arrecadação de US$ 4,2 bilhões. A Fifa manteria o controle acionário da estrutura.

Infantino defendeu a iniciativa ao afirmar que o novo modelo permitiria ampliar os repasses financeiros às federações filiadas. Segundo ele, os valores distribuídos poderiam subir de US$ 8 milhões para US$ 20 milhões por associação.

Infantino destacou ainda que o projeto será submetido a votação das associações membro e ao conselho da entidade. A Fifa informou que as federações que aderirem ao novo modelo poderão receber imediatamente US$ 20 milhões, enquanto aquelas que rejeitarem a proposta permanecerão vinculadas aos valores previstos atualmente pelos programas tradicionais de desenvolvimento.

Mas os dirigentes da Uefa não concordaram. A entidade europeia rejeitou a transferência de participações comerciais das principais competições da Fifa para investidores privados e classificou a iniciativa como uma ameaça ao futuro do futebol.

“A Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento. É um dos maiores legados do futebol”, declarou a Uefa. “Foi construída ao longo de gerações por jogadores, seleções nacionais e torcedores de todos os continentes. Nenhuma parte dela jamais deveria ser entregue a investidores privados. A Copa do Mundo não está à venda.”

A entidade europeia também criticou a condução do processo, ao alegar que a proposta foi elaborada sem consulta adequada às entidades responsáveis pela administração do esporte.

“É irresponsável e indefensável que uma proposta de tamanha importância para o futebol tenha sido concebida em segredo e levada à beira da aprovação sem nemhuma consulta significativa com os responsáveis pela gestão do esporte”, ressaltou. “Isso não é apenas uma profunda falha de liderança, mas uma abdicação do dever da Fifa como guardiã do futebol mundial.”

Para a Uefa, a entrada de investidores privados poderia alterar a lógica das decisões esportivas e colocar interesses financeiros acima das necessidades de federações, clubes, atletas e torcedores.

“No momento em que investidores externos adquirem participações acionárias em competições da Fifa, o futebol muda para sempre”, alertou a entidade. “O retorno comercial torna-se uma obrigação permanente. As expectativas dos investidores transformam-se em uma pressão diária.”

A Uefa acrescentou que decisões sobre calendário internacional, formatos das competições e caminhos futuros do futebol não podem ser orientadas por objetivos de maximização financeira.

“O futuro do futebol não pode ser ditado pelas expectativas daqueles cuja principal obrigação é maximizar o retorno financeiro”, acrescentou. “Nem os interesses de federações nacionais, ligas, clubes, jogadores e torcedores podem ser subordinados ao retorno dos investidores.”

Leia mais: “Copa dos bilhões: como modelo dos EUA levou Fifa a recorde de receita”

A posição europeia ganhou apoio da Concacaf, confederação responsável pelo futebol da América do Norte, Central e Caribe, e da Confederação Asiática de Futebol (AFC). Somadas, as duas entidades representam, junto com a Uefa, 143 das 211 associações filiadas à Fifa.

O projeto também passou a ter um componente político pela participação da Thrive, empresa fundada por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A companhia seria responsável pela operação relacionada à distribuição das ações da nova estrutura.

A disputa representa uma das maiores crises institucionais do futebol mundial desde que Infantino assumiu a presidência da Fifa, em 2016. As federações filiadas terão até 19 de setembro para decidir se aderem ao novo modelo de financiamento proposto pela entidade.

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