Por Ana Lucia Souza
Há lugares aos quais retornamos e descobrimos que eles continuam organizando a nossa vida presente, mesmo quando pensamos ter seguido adiante. Vinte e seis anos depois de deixar o Brasil para viver a dança, volto ao Principado de Mônaco.
A convite de Sua Alteza Real a Princesa Caroline de Hanôver e de Jean-Christophe Maillot, celebramos os quarenta anos dos Ballets de Monte-Carlo. A companhia foi criada pela Princesa em 1985, mas sua história começa antes. No balé, as línguas e as nações se misturam e se conectam; no palco, todos os reinos convergem.
Foi no Principado de Mônaco que Serge Diaghilev e os Ballets Russes encontraram sua última casa. Após a morte de Diaghilev, em 1929, a companhia se encerrou, mas a ideia que ela havia introduzido no mundo permaneceu: o balé poderia ser, ao mesmo tempo, tradição e invenção; disciplina e risco.
Décadas mais tarde, a criação dos Ballets de Monte-Carlo representou, em muitos sentidos, a retomada desse legado. Não uma continuação literal dos Ballets Russes, mas a persistência de um mesmo impulso artístico, tomando o palco em novos trajes e em outro tempo.
Durante a gala pensei na história que antecedeu a minha chegada e entendi que não estava ali apenas para olhar para trás. Foi em Mônaco que decidi anunciar oficialmente o lançamento do Brazil Dance Forum.
Uma iniciativa que criei ao lado de Luciana Rizzo para ligar jovens bailarinos brasileiros, entre 16 e 21 anos, oriundos de contextos socialmente desfavorecidos, a escolas e companhias de dança de referência internacional.
Luciana e eu nos conhecemos em outro momento decisivo. No ano 2000, participamos do Seminário Internacional de Dança de Brasília. Eu recebi uma bolsa para a Escola do Ballet de Mannheim, na Alemanha, e Luciana conquistou uma bolsa de estudos em Viena. A pressa jovial de viver meu sonho não me deixou vislumbrar o horizonte que esse passo abriu.
Aquelas bolsas representavam algo muito maior, elas eram uma autorização silenciosa para imaginar um futuro que, até então, parecia distante para duas bailarinas brasileiras.
É a partir dessa percepção que nasce o Brazil Dance Forum. Não da ideia de caridade, nem da ilusão de que o talento precisa ser descoberto. O talento já existe. O que muitas vezes falta é a passagem.
Voltar ao Principado de Mônaco me fez pensar que a dança se sustenta justamente nisso: uma porta se abre, alguém atravessa, e anos depois retorna para que outros possam cruzar esse arco também. Talvez seja essa a única forma de legado que realmente importa.

