As escolas ampliaram o debate sobre uso de tecnologias digitais por crianças e adolescentes no último ano, envolvendo também familiares e responsáveis numa conversa que precisa ser permanente. Em meio à aprovação do ECA Digital, a lei brasileira, que busca proteger os mais jovens nos ambientes online, constatar que essa mobilização está sendo construída é uma notícia a ser celebrada.
Outras iniciativas que podem contribuir para a resiliência online, no entanto, como práticas de educação digital e midiática, ainda demandam consolidação —principalmente, no que diz respeito à formação de professores.
Essas são algumas das informações que podemos depreender da pesquisa TIC Educação 2025, divulgada nesta semana pelo Cetic.br. O levantamento, realizado desde 2010, investiga o uso e a apropriação das tecnologias de informação e comunicação nas escolas brasileiras, e nesta edição trouxe dados inéditos que ajudam a entender o papel que vem sendo desempenhado pelas escolas na importante jornada de desenvolvimento de uma fluência digital crítica.
Também foi a primeira vez que a pesquisa investigou como gestores escolares têm lidado com a inteligência artificial generativa e o principal achado é que, assim como ocorre com estudantes, o uso das ferramentas avança mais rapidamente que a construção de diretrizes para sua utilização.
Para Alexandre Barbosa, que dirige o Cetic.br, três mensagens principais podem ser extraídas do estudo: a escola ocupa posição estratégica na promoção dos direitos de crianças e adolescentes em ambientes digitais; não haverá educação digital e midiática equitativa sem acesso à infraestrutura necessária para garantir a conexão das escolas e sem articulação entre escolas e famílias; e a IA precisa ser incorporada com intencionalidade pedagógica na educação formal.
De acordo com a consulta, a maioria das escolas (65%) diz realizar projetos de educação digital e midiática. Mas em 98% desses casos as iniciativas ocorrem por meio de conversas com os alunos durante as aulas, enquanto 43% distribuem cartilhas e panfletos para os estudantes.
Tanto para as escolas que implementam ações de educação digital quanto para as que não adotam, o principal desafio apontado é o mesmo: baixa participação das famílias e responsáveis. Na sequência, aparecem falta de materiais e recursos educacionais de apoio e problemas relacionados à qualidade dos computadores e do acesso à internet na escola.
A pesquisa também mostrou que 86% dos gestores escolares realizaram reuniões sobre o uso de tecnologias digitais com professores e outros profissionais no último ano, enquanto 75% promoveram encontros com pais, mães e responsáveis. Os dados superam o percentual registrado na sondagem anterior, de 68% e 60%, respectivamente. Os assuntos mais abordados nas conversas foram regras para uso de celulares na escola (83%), impactos das tecnologias digitais na saúde mental (80%), consequências para a prática pedagógica (78%) e ações em relação a cyberbullying, discriminação, vazamento de imagens e outras situações ocorridas na internet com os estudantes.
Ao promover habilidades, atitudes e comportamentos mais reflexivos, conscientes e responsáveis para o manejo das mídias, especialmente em ambientes digitais, a educação digital e midiática precisa enraizar-se nas escolas, com formação adequada de professores e uma abordagem holística que permita sua inserção ao longo de todas etapas de ensino. Ainda que atividades e conversas pontuais sejam bem-vindas, é sua incorporação no currículo que possibilitará mais resiliência e a construção de uma autonomia crítica para crianças e adolescentes.

