InícioEducaçãoCom atividades presenciais, EAD tenta aumentar qualidade e reduzir deficiências de formação

Com atividades presenciais, EAD tenta aumentar qualidade e reduzir deficiências de formação

Após uma expansão acelerada, o ensino a distância no Brasil entrou em nova fase. As novas diretrizes do MEC (Ministério da Educação) ampliam as exigências presenciais, restringem a oferta de cursos totalmente virtuais nas licenciaturas e obrigam as instituições privadas a rever seus projetos pedagógicos.

As mudanças buscam elevar a qualidade da formação e reacendem o debate sobre como conciliar o acesso ao ensino superior com a garantia de uma formação acadêmica.

Entre as principais alterações está o fim da oferta de novas licenciaturas 100% a distância. Esses cursos passam a ser obrigatoriamente semipresenciais. Pelo novo modelo, até metade da carga horária poderá ser ofertada de forma assíncrona, enquanto o restante deve ser dividido entre atividades presenciais e aulas online ao vivo.

O estudante George Caetano, 30, conciliou diferentes graduações apostando na flexibilidade do EAD. Ele se formou em nutrição, a distância, e em pedagogia, em curso semipresencial. Atualmente, ele cursa terapia ocupacional a distância e também medicina na UnB (Universidade de Brasília).

“A flexibilidade de estudar quando quiser é um atrativo gigante, mas também traz um estresse contínuo. Muitos estudantes jogam a perspectiva do estudo para depois, e isso vira uma bola de neve”, explica o aluno.

Caetano aponta a falta de contato direto com professores como principal problema do EAD. “Hoje eu não tenho professor, tenho tutor para mais de 150 alunos. Tive uma dúvida simples e a resposta demorou quase 20 dias, por causa da burocracia dos chamados.”

A percepção do estudante se reflete nos indicadores do setor. Dados do Mapa do Ensino Superior, elaborado pelo Semesp (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior) com base no Censo da Educação Superior do MEC, mostram que a evasão no EAD atingiu 41,6% em 2024 —o maior índice da série histórica iniciada em 2014.

Para Angela Rezende, coordenadora do curso de filosofia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a presença dos docentes continua sendo um dos pilares da formação universitária. “O fortalecimento do que se entende por presencialidade, seja pela efetivação da aula no modelo tradicional ou pela aula síncrona mediada, visa superar estes entraves.”

Durante a graduação em nutrição, Caetano conta que as aulas de anatomia eram realizadas em um laboratório virtual. “Sei a teoria porque fui atrás de estudar, mas não tenho a habilidade prática. Se fosse atender um paciente hoje, representaria um risco real.”

Embora a modalidade tenha democratizado a entrada na universidade, principalmente para quem trabalha ou vive longe dos grandes centros, a rápida expansão veio acompanhada de questionamentos sobre a qualidade dos cursos.

Henrique Tahan Novaes, professor e coordenador da coordenadoria de desenvolvimento profissional e práticas pedagógicas da Unesp (Universidade Estadual Paulista), afirma que ter uma parcela de carga horária presencial representa uma evolução pontual. Ele avalia com cautela o panorama do setor privado.

“Perto do que era, é um passo muito pequeno, mas importante, ter 20% de carga horária presencial. A qualidade da educação privada brasileira é muito ruim, seja ela nos cursos presenciais ou a distância. Temos poucas universidades públicas oferecendo ensino presencial de qualidade e EAD. Optamos por entregar aos mercadores da educação uma área estratégica”, afirma Novaes.

Fábio Arlindo Silva, doutor em educação e assessor para a área de educação a distância na Unesp, afirma que a ampliação presencial no formato EAD exigirá investimentos em infraestrutura e pessoal por parte das instituições.

“Será necessário criar espaços para vivências e mediação pedagógica, com toda a infraestrutura física e tecnológica necessária. Mas, fundamentalmente, precisará contratar professores sem precarizá-los para mediarem essas atividades presenciais”, afirma Silva.

Segundo Juliano Griebeler, diretor de relações institucionais da Cogna, a regulamentação do EAD deve fixar critérios de qualidade sem restringir inovação.

“Não podemos regular o EAD olhando no retrovisor e tentando replicar o presencial”, diz. “A qualidade não está em copiar a sala de aula tradicional, mas em construir experiências de aprendizagem consistentes, com uso adequado da tecnologia e inovação.”

Além disso, também é necessário pensar nas especificidades regionais, afirma Janes Fidelis, vice-presidente acadêmico da Ânima Educação. “Quem mora em comunidades ribeirinhas precisa navegar muitas horas para chegar a um polo. Essas pessoas podem acabar ficando sem acesso ao ensino superior. O desafio é garantir qualidade sem perder a capacidade de inclusão que tornou o EAD tão importante.”

Para realizar as adequações necessárias do novo formato, as instituições de ensino precisaram investir na infraestrutura. Janguiê Diniz, diretor-presidente da Abmes (Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior), afirma que a adequação exigirá aportes que podem pressionar mensalidades. O setor busca absorver parte dos gastos para conter impactos e manter atratividade em municípios sem cursos presenciais.

George Caetano reconhece a importância do EAD para sua trajetória, mas ressalta o estigma enfrentado por alunos formados à distância no mercado de trabalho.

“O preconceito é nítido e constante. Muitos ainda associam o diploma EAD a uma formação inferior”, diz. “Já vi colegas perderem oportunidades de trabalho depois que descobriram que a graduação era a distância. Isso acaba colocando todos os cursos no mesmo pacote, inclusive aqueles que oferecem uma formação séria”, afirma o estudante.

Diniz, da Abmes, avalia que o preconceito tende a cair à medida que as regras eliminem do mercado ofertas de cursos de baixa qualidade. Ele lembra também que a legislação brasileira proíbe a indicação da modalidade no diploma do graduado, dispositivo criado para impedir discriminações profissionais.

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