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Por dentro das engenharias: de nuclear a petróleo, cursos exploram energia e recursos naturais

Aluno nota 10 durante todo o ensino médio em escola pública, Vinicius Silva, 24, sentiu um abismo ao ingressar no curso de engenharia nuclear. Logo no início, se deparou com conteúdos que nunca havia estudado, como o número de Euler e logaritmos mais avançados.

Natural de Itabira (MG) —cidade que, como faz questão de destacar, é a terra do escritor Carlos Drummond de Andrade—, o estudante se mudou para o Rio de Janeiro após ser aprovado no Enem para cursar engenharia nuclear na UFRJ, única graduação desse campo oferecida no Sisu.

O interesse pela área surgiu ainda no ensino médio, durante um curso técnico em química. Na época, ele percebeu que a disciplina não se aprofundava tanto no estudo dos átomos quanto gostaria. Ao descobrir a existência da engenharia nuclear, enxergou ali uma possibilidade de seguir esse interesse.

A realidade, porém, foi outra. Com o tempo, ele percebeu que a formação é centrada sobretudo na física e nos fundamentos da energia atômica. “Tem que vir de peito aberto. Não é uma área para quem quer só seguir uma carreira, mas para quem quer inovar e fazer algo diferente”, afirma.

Assim como a engenharia nuclear, outras graduações voltadas à energia e aos recursos naturais —como engenharia de minas, petróleo e gás e energia/renováveis— compartilham um alto grau de complexidade técnica e atuação estratégica em setores-chave da economia.

O diretor da Escola Politécnica da UFRJ, Sérgio Lima Netto, a engenharia nuclear exige domínio avançado de física, o que torna o curso especialmente exigente.

A segurança exigida na formação também é citada por Netto como a principal característica do curso. O aluno estuda a física do átomo em nível profundo (molecular e atômico) para entender os processos de geração de energia e outras aplicações.

Para Vinicius, o engenheiro nuclear é alguém que “mexe com os fundamentos da energia” e consegue “controlar a energia dos átomos e transformar isso em coisas úteis”, desde usinas até máquinas de raio-X e conservação de alimentos.

A escolha pelo Rio de Janeiro também levou Yan Furtado, 23, à UFRJ. Natural de Rio Branco (AC), ele decidiu cursar engenharia de petróleo, atraído pela força dessa indústria no estado.

Inicialmente interessado em economia, ele viu na engenharia uma forma de se aproximar do mercado financeiro. “Petróleo é uma commodity. Eu falei: ‘Pô, então é petróleo’”, afirma.

Após uma busca rápida, identificou o curso da UFRJ como um dos mais bem avaliados do país e decidiu “estudar com os melhores”. Ainda assim, enfrentou dificuldades em razão da pandemia. A turma começou com cerca de 40 alunos e, após a crise sanitária e as exigências da graduação, restaram pouco mais de dez.

Especialistas apontam que a engenharia de petróleo e gás é uma das áreas mais estratégicas da economia. Durante o curso, a formação trata de toda a cadeia produtiva, desde a prospecção de jazidas e perfuração de poços até a extração e o refino de petróleo e gás natural.

Segundo Netto, trata-se de um setor de grande escala e alto investimento, que envolve um grande ecossistema de empresas. Embora a Petrobras seja o principal agente do mercado brasileiro, há a participação de diversas companhias internacionais e prestadoras de serviço.

Além disso, o caráter multidisciplinar é uma das marcas da área. Engenheiros de petróleo atuam em conjunto com profissionais de outras especialidades, como mecânica e química. Para especialistas, a indústria deve manter relevância nas próximas décadas, mesmo diante das discussões sobre transição energética.

Diferentemente de Yan, Amanda Cortkamp, 22, também estudante de engenharia de petróleo na UFRJ, quer trabalhar embarcada. O plano, porém, não era esse. Inicialmente, pretendia cursar engenharia de produção. Sem nota suficiente para ingressar de primeira, optou por petróleo com a intenção de pedir transferência interna.

A mudança veio já na primeira semana. “Quando comecei a ver como era o setor de verdade, me apaixonei”, afirma.

No entanto, a adaptação foi difícil. Acostumada a aprender apenas acompanhando as aulas, ela percebeu que o ritmo da universidade exigia uma rotina intensa de estudos. Chegou a ser reprovada em cálculo. “Aqui, tem que estudar que nem uma louca. Foi bem difícil —e ainda é”, diz.

Sobre o mercado, a estudante diz não ver falta de oportunidades. “Tem muito espaço, no Brasil e fora.” afirma.

Para explicar o trabalho, recorre a exemplos do próprio estágio, na área de integridade de equipamentos submarinos. Segundo ela, robôs são usados para explorar o fundo do mar e coletar dados, que depois são analisados por engenheiros para orientar decisões operacionais das empresas.

Também dentro do campo de energia está a engenharia de minas, uma das áreas mais tradicionais do Brasil e base para diversas cadeias industriais. Esse engenheiro é responsável por extrair recursos minerais da natureza e realizar o beneficiamento desses materiais.

A formação envolve conhecimentos de geologia e química, além de técnicas de exploração, perfuração e processamento mineral.

O pró-reitor adjunto de graduação da UFMG, Pedro Pereira, diz que o setor tem importância estratégica crescente, especialmente diante da demanda por minerais usados em tecnologias modernas, como terras raras e metais para transição energética.

Já a engenharia de energia aparece como uma das áreas mais recentes e em expansão dentro do setor. O curso é voltado ao estudo das diferentes matrizes energéticas e à forma como a energia é produzida e distribuída.

O foco do curso está principalmente em tecnologias consideradas mais sustentáveis, como energia solar e eólica, além de temas como eficiência energética e sistemas elétricos.

Especialistas apontam que o mercado também tende a crescer com a transição energética e a digitalização do setor. Por isso, o engenheiro de energia é visto como um profissional capaz de atuar na gestão e inovação de sistemas cada vez mais complexos.


Engenharia Nuclear

  • Número de graduações oferecidas no Sisu: 1
  • O que o aluno vai aprender: O curso exige o domínio de uma teoria física muito mais avançada e profunda do que em outras áreas, pois lida com o átomo em nível molecular e nuclear.

  • O que a área faz: Atua primordialmente na geração de energia elétrica, mas possui um foco rigoroso em segurança. Além disso, desenvolve soluções para a área biomédica e uso pacífico de tecnologias nucleares.

  • Profissões depois de se formar: O engenheiro pode trabalhar na operação de usinas nucleares, no desenvolvimento de equipamentos médicos (exames e tratamentos que usam radiação) e em centros de pesquisa científica.

Engenharia de Energia / Renováveis

  • Número de graduações oferecidas no Sisu: 24
  • O que o aluno vai aprender: Aprende sobre a produção e distribuição de fontes diversas, como solar, eólica, biocombustíveis e sistemas elétricos, focando em eficiência energética.

  • O que a área faz: Projeta e gerencia a matriz energética, buscando a transição para energias limpas e a sustentabilidade socioeconômica. Atua no desenvolvimento de tecnologias para combater a crise climática e na modernização da rede elétrica.

  • Profissões depois de se formar: Pode atuar em empresas de geração e transmissão de energia, no mercado livre de energia (gestão e comercialização), em órgãos públicos de políticas ambientais ou em startups focadas em tecnologias verdes e redes inteligentes (smart grids).

Engenharia de Petróleo e Gás

  • Número de graduações oferecidas no Sisu: 12
  • O que o aluno vai aprender: A formação abrange toda a cadeia produtiva: prospecção (busca), perfuração, extração, refino e transporte. O aluno aprende a projetar a infraestrutura necessária, como plataformas marítimas, refinarias e gasodutos.
  • O que a área faz: Gerencia o ecossistema bilionário dos hidrocarbonetos. Isso envolve desde encontrar o óleo no subsolo ou mar até transformá-lo em produtos finais e derivados, sempre buscando a otimização dos processos e a viabilidade técnico-econômica.
  • Profissões depois de se formar: O mercado é dominado pela Petrobras e por uma vasta rede de empresas multinacionais de apoio e serviços. O profissional atua em campos de extração (especialmente no Rio de Janeiro), em refinarias, na logística de transporte e também em setores financeiros ligados a commodities.

Engenharia de Minas

  • Número de graduações oferecidas no Sisu: 17
  • O que o aluno vai aprender: Aprende a extrair recursos minerais e a realizar o beneficiamento, que consiste em separar os elementos químicos de interesse da matéria-prima bruta encontrada na natureza. Recentemente, o foco incluiu a exploração de lítio e terras raras, essenciais para a tecnologia moderna.

  • O que a área faz: É responsável pela etapa inicial de prospecção e retirada de minérios. O objetivo é prover matéria-prima para outras indústrias, tentando agregar valor aos recursos nacionais (como transformar minério em chips ou ligas aeronáuticas) em vez de apenas exportar material bruto.

  • Profissões depois de se formar: Atua em grandes mineradoras, indústrias metalúrgicas e empresas de consultoria mineral. O engenheiro de minas é essencial no início da cadeia de produção de baterias, eletrônicos e infraestrutura pesada.

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