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Comédia sobre machismo e relacionamentos propõe diálogo leve com obra de Clarice Lispector

Sob a direção de Laerte Mello, ‘Barata’, peça escrita e protagonizada por Martina Alencar, é apresentada em espaço cultural intimista na Pompeia

Publicado em 1964, o romance A Paixão Segundo G.H. é considerado a obra mais radical da escritora Clarice Lispector (1920-1977). A protagonista, uma escultora da elite carioca, encontra uma barata viva no quarto da empregada e, entre a repulsa e a identificação, inicia uma jornada filosófica e existencial transformadora.

Profundos e carregados de significados, os textos de Clarice costumam inspirar derivados igualmente densos, ainda mais no teatro. Barata, texto de estreia da dramaturga e atriz Martina Alencar, de 37 anos, segue um outro caminho, mais leve. A partir do encontro entre uma mulher e o inseto, a autora desenvolve uma comédia reflexiva sobre relacionamentos tóxicos e a dependência dos parceiros.



Martina Alencar estrela e escreve a peça 'Barata', que foi inspirada em obra de Clarice Lispector

Martina Alencar estrela e escreve a peça ‘Barata’, que foi inspirada em obra de Clarice Lispector

Foto: Laura Carvalho/Divulgação / Estadão

Em cartaz no Espaço NoDrama, na Rua Cotoxó, 1315, na Pompeia, Barata não é uma adaptação de A Paixão Segundo G.H., mas um diálogo com a obra e os personagens. Sob a direção de Laerte Mello, a peça é centrada na artista plástica Clara (interpretada por Bertha Miranda), que decide morar com o namorado, Henrique (papel de Alexandre Ogata), um acadêmico especialista nos livros de Clarice, e perde espaço dentro da própria casa.

Clara cede o ateliê para que o rapaz dê suas aulas online, cozinha para os dois, lava as roupas e, aos poucos, percebe que virou tão irrelevante quanto uma barata. “É uma comédia sobre uma mulher que se pega esperando a aprovação de um homem que a rebaixa com erudição”, explica a autora. “Em nenhum momento, demonizo a figura masculina, mas coloco a mulher em posição de agente da própria escolha.”

A rotina subserviente de Clara passa por uma reviravolta quando ela, assim como a personagem de Clarice, se vê diante de uma barata (representada por Martina) e se projeta nela. O bicho, inicialmente repugnante, fascina a protagonista com um discurso provocativo e um debate entre as duas leva Clara a reavaliar as posturas submissas.

“Os textos de Martina têm uma pegada leve sem deixar de lado a crítica e a reflexão”, elogia o diretor Laerte Mello. “Faz falta no teatro atual peças assim que induzam a um pensamento sem serem pesadas ou panfletárias.”

Mello conheceu Martina no ano passado como professor no Célia Helena Centro de Artes e Educação. Depois de uma aula, a aluna pediu para ele ler uma de suas dramaturgias, Família Leal, e comentou do projeto de abrir um centro cultural.

Mello, conhecedor da cena alternativa europeia, principalmente as de Londres e de Edimburgo, se associou à aluna no Espaço NoDrama, inaugurado em agosto do ano passado, que, além de um teatro intimista para quarenta espectadores, oferece cursos e um bar para receber o público depois das sessões.



Bertha Miranda (à esquerda) e Martina Alencar (à direita) em cena de 'Barata'; peça está em cartaz na Pompeia

Bertha Miranda (à esquerda) e Martina Alencar (à direita) em cena de ‘Barata’; peça está em cartaz na Pompeia

Foto: Laura Carvalho/Divulgação / Estadão

Na mesma linha de espaços, como o Garagem, na Vila Romana, o Garganta, na Vila Buarque, e o Cemitério de Automóveis, na Bela Vista, o NoDrama quer se firmar como um ponto de encontros para artistas e interessados em teatro. Bertha Miranda, que vive Clara em Barata, foi descoberta por Mello e Martina em um dos cursos ministrados no local. A dramaturga britânica Sarah Kane (1971-1999), o autor canadense Daniel MacIvor, a brasileira Silvia Gomez e o maior de todos, William Shakespeare, foram motes destas oficinas.

Com o núcleo estabelecido, Martina e Mello aquecem a produção para os próximos meses. A autora pretende montar mais dois textos. Em Ibirapuera, ela se inspirou em Zoo Story, do norte-americano Edward Albee (1928-2016), para narrar o encontro em um parque de duas mães, uma judia e outra laica, que enfrentam o luto pelos filhos, e Re-Voltas enfoca um casal que se desestrutura ao saber que a filha de 14 anos se envolveu com o professor de matemática.

“Eu já acumulei histórias e frustrações nesta vida e descobri que o teatro é o melhor jeito de me expressar”, afirma Martina. “Como encontrei um espaço e uma turma para trabalhar, agora quero jogar tudo no palco e fazer a coisa acontecer.”

Serviço – Barata

  • NoDrama. Rua Cotoxó 1315, Pompeia.
  • Sexta, 20h30; sábado e domingo, 19h.
  • R$ 60,00.
  • Até 9 de agosto.

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