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Guerra sem fim: bombardeios entre EUA e Irã fazem subir a temperatura no Oriente Médio

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Mal havia passado uma semana depois de os Estados Unidos e Irã assinarem um acordo preliminar com o objetivo de pôr fim ao conflito que incendeia o Oriente Médio e abala os mercados globais, quando um drone iraniano atingiu um navio que trafegava pelo Estreito de Ormuz, a nevrálgica artéria por onde transita um quinto do petróleo consumido no planeta. Não houve vítimas nem grandes danos, mas os americanos reagiram e formou-se ali uma faísca suficiente para elevar as já altas temperaturas no caldeirão de desavenças da região e desencadear hostilidades em série — e o mundo voltou a temer uma guerra total, em que ataques pontuais podem virar uma batalha mais abrangente. Na terça-feira 21, mísseis da nação persa acertaram uma usina de dessalinização de água no Kuwait, bem precioso no deserto, além de bases militares na Jordânia e no Bahrein. O presidente Donald Trump veio então a público munido de ameaças (“a campanha não terminou de jeito nenhum”) e avisando que um complexo nuclear do oponente pode ser o próximo alvo.

VAIAS - Trump com Infantino: tentativa frustrada de sair bem na foto da Copa
VAIAS - Trump com Infantino: tentativa frustrada de sair bem na foto da Copa (Alexandre Battibugli/.)

Mesmo que prossigam costuras daqui e dali para reabilitar o pacto selado em 17 de junho, o conjunto de movimentos no belicoso xadrez sugere que esta seja mais uma daquelas arrastadas contendas, que Trump prometeu encerrar com todas as letras maiúsculas e os pontos de exclamação de que tanto gosta quando assumiu o leme da Casa Branca. Uma guerra esticada realmente não estava nos planos do republicano. À época dos primeiros bombardeios ao Irã pelos aliados Estados Unidos e Israel, no final de fevereiro, o governo de Washington confiava que, ao eliminar o líder supremo Ali Khamenei, ganharia facilmente terreno na já enfraquecida república dos aiatolás, tal como no episódio em que apeou Nicolás Maduro do poder na Venezuela, dois meses antes, para pô-lo na cadeia em Nova York. A ideia era que a própria população, embalada por insatisfações, derrubasse o regime. Mas nada saiu como o esperado, e tudo o que justificava a investida (extinguir o programa nuclear iraniano no topo da lista) continua em aberto, o que torna mais longínquo o horizonte de um cessar-fogo e da paz duradoura.

Pelas profundas divergências de parte a parte e a cadência dos acontecimentos, o atual conflito se alonga tal como se vê na vizinha Gaza, enclave palestino sobre o qual Israel avança a cada dia, mesmo com uma trégua acertada, e também na Ucrânia, onde a invasão russa se encaminha para o quinto ano. Embates podem se estender por bastante tempo, especialmente se os envolvidos o encaram como algo existencial e de suma importância para demarcar seu papel na geopolítica, a exemplo das quedas de braço em curso. O que conspira a favor da indesejável longevidade das guerras da atualidade é que, hoje, elas são movidas a ataques que vêm do ar, quase sem a presença de tropas em solo, o que facilita a manutenção das hostilidades em modo quase cirúrgico. O que sempre agrava o quadro é haver um punhado de grandes metas no lugar de um objetivo claro. “Isso acaba gerando pressão para cada parte buscar constantemente um pouco mais”, diz James Jeffrey, do think tank Washington Institute.

A VOZ DA RUA - Protesto em Nova York: excessos da política anti-imigração custam caro à popularidade do presidente
A VOZ DA RUA - Protesto em Nova York: excessos da política anti-imigração custam caro à popularidade do presidente (Ryan Murphy/AFP)
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No caso de Irã e Estados Unidos, agora um tenta asfixiar o outro — Teerã acha que apertando o cerco em Ormuz fará o inimigo ceder diante da disparada do preço do petróleo e a inflação que ela embute, e Washington acredita que o Irã sucumbirá com a erosão da economia e a deterioração de sua infraestrutura. “Os dois lados estão superestimando sua posição”, afirma Robert Malley, analista do International Crisis Group e antigo enviado do governo Barack Obama na região. Militarmente muito mais fraco, o país persa tem tentado reverter a flagrante desvantagem usando um arsenal de drones nos quais, assim como a Ucrânia, também se especializou. Estima-se que o Shahed-136, maior exemplar do tipo camicase, exportado pelos aiatolás, custe por volta de 20 000 dólares, uma pechincha diante dos interceptadores usados para neutralizá-­los, de valor milionário. Também, bloquear uma nesga como Ormuz é certamente menos oneroso e se revelou infinitamente mais eficaz do que a via das bombas. Está aí, aliás, um dos nós mais difíceis de desatar para a Casa Branca: os iranianos já disseram que querem manter o controle da estratégica cancela e até cobrar pedágio, o que seria uma retumbante derrota para os americanos — um recuo em relação à situação pré-guerra.

No intrincado mapa do Oriente Médio, frequentemente uma batalha se interliga à outra em meio a uma teia de alianças para lá de complexa. Nos últimos dias, os rebeldes hutis, do Iêmen, financiados pelo Irã tal como o Hamas, em Gaza, e o Hezbollah, no Líbano, entraram em cena. O grupo anunciou um bloqueio marítimo à Arábia Saudita (país aliado dos Estados Unidos, com os quais acaba de firmar um polêmico acordo nuclear) e ameaça dificultar o tráfego em outro estreito, o de Bab el-­Mandeb, também central para o transporte de petróleo. Na quinta-feira 23, dois petroleiros foram atingidos ali.

NÃO ACABA - Ucrânia: o enroscado conflito se encaminha para o quinto ano
NÃO ACABA - Ucrânia: o enroscado conflito se encaminha para o quinto ano (Darya Nazarova/AFP)
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O explosivo cenário não era o plano A de Trump, mas foi o que restou. “Vamos destruir todas as usinas de energia deles”, prometeu o presidente. “O governo americano usa os ataques como ferramenta para voltar às tratativas com maior poder e forçar Teerã a ser mais flexível”, diz Nate Swanson, da consultoria Atlantic Council. Mesmo entre bombas, as autoridades de Washington e de Teerã emitem sinais de que estão abertas ao diálogo, embora equilibrando-se em uma finíssima linha, em que qualquer passo em falso pode fazer entornar o caldo. “Estamos em uma espécie de zona cinzenta, onde a diplomacia administra a guerra em vez de encerrá-la”, diz Inderjeet Parmar, professor de política internacional da Universidade de Londres.

O recrudescimento da guerra não interessa a Trump, cuja aprovação derreteu até estacionar nos atuais 36%, em grande parte pelos reflexos da guerra no bolso. Em recente levantamento, quase 70% dos americanos (incluindo aí eleitores republicanos desiludidos) dizem que a operação no Irã “não vale a pena”, fatia superior à que repudiou no passado os conflitos no Iraque e no Afeganistão. Para piorar as coisas para o mercurial mandatário, as pesquisas mostram que somente 30% aprovam sua gestão na economia, uma das áreas onde ele mais colhia louros no primeiro mandato. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, reconheceu que a empreitada militar já custou 37,5 bilhões de dólares aos cofres públicos, um aumento de quase 30% em relação à estimativa anterior, e pediu ao Congresso o dobro disso para “gastos emergenciais” (no que foi atendido rapidamente, sendo agraciado com um pacotaço de 95 bilhões de dólares). São dados que preocupam as rodas do poder em Washington — e com razão. As eleições de meio de mandato, que daqui a quatro meses colocarão em disputa cruciais assentos no Congresso, podem ser diretamente impactadas, e Trump corre o risco de sair menor do pleito.

“CESSAR-FOGO” - Gaza: a castigada população segue vivendo sob ataques
“CESSAR-FOGO” - Gaza: a castigada população segue vivendo sob ataques (Ahmed Al Arini/Middle East Images/AFP)
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Enquanto não consegue livrar-se da armadilha em que se meteu no Oriente Médio, o presidente tem se mexido internamente na tentativa de reverter a má fase. Recentemente, decidiu intensificar as ações do ICE, a temida polícia de imigração, estabelecendo a meta de 2 000 prisões por dia. Ao agitar com mais fervor a bandeira que o ajudou a vencer o páreo presidencial em 2024 e ir atrás dos estrangeiros, a aposta é reconquistar não apenas a parcela dos republicanos que hoje lhe torcem o nariz, mas também mulheres e eleitores independentes para quem a questão migratória é prioritária. O problema é que a truculência dos agentes federais, que nos últimos dias custou a vida de um mexicano e um colombiano, costuma produzir efeito contrário. E assim foi: às mortes seguiram-se enfurecidos protestos, do Texas a Nova York. Com tudo isso, Trump ainda quis tirar uma casquinha da cerimônia de entrega de medalhas na Copa do Mundo. Não deu muito certo. Ao lado de Gianni Infantino, o presidente da Fifa, recebeu sonoras vaias e ainda tentou se infiltrar na foto dos campeões espanhóis, sem sucesso. Como se vê, o jogo anda mesmo duro para Trump.

Publicado em VEJA de 24 de julho de 2026, edição nº 3005

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