“Para ser barroco, basta ter alguma cultura livresca. Para ser simples, é preciso ser poeta”, disse Orides Fontela (1940-1998) em uma rara entrevista veiculada há 30 anos no Estadão. Ela havia há pouco lançado seu último livro publicado em vida, Teia (1996), em um momento de grande turbulência em sua vida e em sua relação com a mídia e a comunidade literária. Leia a entrevista na íntegra abaixo.
Uma das mais importantes poetas da segunda metade do século 20, Orides ficou conhecida pelas atualizações que levou ao movimento modernista, abrindo caminhos para o que hoje é entendido como poesia contemporânea. Mas acabou tendo pouco reconhecimento do público geral – agora, seu trabalho será resgatado pela Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, que escolheu Orides como autora homenageada de sua 24ª edição.
A Flip começa nesta quarta, 22, e vai até domingo, 26, com importantes nomes da literatura nacional e internacional – Zadie Smith, Ana Paula Tavares, Cármen Lúcia, Milton Hatoum, entre outros. A mesa de abertura, batizada de Entra Furtivamente a Luz, começa às 19h30 e é um tributo a Orides com o crítico literário Augusto Massi e a poeta e ensaísta Marília Garcia.
Massi, aliás, é citado na entrevista concedida ao Estadão em 1º de junho de 1996. Na ocasião, ela conversou por telefone com o jornalista e escritor José Castello, colaborador do jornal. A conversa durou cerca de 30 minutos; foi negociada com o escritor e editor Luis Fernando Emediato, fundador da Geração Editorial, a editora que publicou Teia na época.
“[O livro] causou uma certa decepção entre os críticos, que o consideraram ‘fácil’. Sua poesia, sempre fechada e enigmática, começou, com Teia, a ganhar visibilidade – chegou a ser tema de uma reportagem no Fantástico. Orides andava decepcionada, porque falavam mais dela – ‘a mulher difícil’, a professora aposentada pobre, que vivia de favor na Casa do Estudante de São Paulo depois de ser despejada de sua casa – do que de seus poemas. O sucesso repentino a deixou desconfiada e arredia”, lembra Castello agora ao Estadão.
Mesmo que o livro tenha impulsionado sua visibilidade na mídia, essa descoberta foi decepcionante para ela. “Imaginava que, depois de Teia, sua poesia seria mais conhecida e mais lida. Contudo, já em uma reportagem da revista Veja, a mulher ‘exótica’ – pobre, desajeitada, complicada – tomou a frente dos poemas”, explica o jornalista.
Castello conta que Orides concordou com a entrevista apesar de visivelmente desconfiada. Mas conversou tranquilamente com o jornalista: “Tinha um jeito meio seco, meio ríspido, mas eu já sabia disso e não tomei como algo pessoal. Afora isso, colaborou como pode e respondeu sem problemas a todas as minhas perguntas.”
Orides falou das críticas, seu afastamento da religião zen-budista, sobre se sentir menosprezada por poetas da época e afirmou que não gostava de ser encarada como poeta que sofre. “Já fui chamada de estoica e isso eu aceito. No Brasil, o povo tem de ser estoico à força”, disse ela.
Homenagem na Flip resgata Orides e coincide com relançamentos de seus livros
Nascida em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, Orides Fontela publicou seu primeiro livro, Transposição, em 1969, já perto de completar 30 anos, com a ajuda do crítico literário e seu conterrâneo Davi Arrigucci Júnior, que havia lido um poema dela publicado no jornal O Município.
Transposição ganhou destaque entre entusiastas da poesia. O trabalho chamou a atenção de críticos como Antonio Candido (1918-2017) e Décio de Almeida Prado (1917-2000) e, com isso, Orides chegou a publicar poemas no icônico Suplemento Literário do Estadão. Nos anos seguintes, também colaborou como crítica literária do Caderno 2.
A publicação de seu primeiro livro permitiu que a escritora se mudasse para a capital paulista para estudar Filosofia na Universidade de São Paulo (USP), onde teve aulas com a filósofa e escritora Marilena Chauí, que acabou tornando-se sua amiga. Ela também foi professora e bibliotecária.
Nos anos seguintes, Orides publicou livros como Helianto (1973), Rosácea (1986) e Alba (1983), que acabou lhe rendendo um Prêmio Jabuti. Teia, seu último livro, foi premiada pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). Ela morreu pouco depois, em 1998, aos 58 anos, vítima de insuficiência cardiopulmonar, provocada por uma tuberculose.
“Era difícil classificar a Orides porque ela juntava traços de várias vertentes poéticas. Tinha um rigor construtivo. Ao mesmo tempo que execrava poesia confessional, ela construía versos com estilo muito próprio e de uma depuração profunda. São poemas muito concisos no geral”, disse Rita Palmeira, curadora literária da Flip 2026, ao Estadão, quando a festa anunciou Orides como autora homenageada.
José Castello faz análise semelhante: “O que mais me impressiona na poesia de Orides é a extrema precisão. A firmeza, a contundência, a severidade com que maneja as palavras. Orides sabe que as palavras valem ouro e por isso não as desperdiça. É cirúrgica em seu trato com a língua.”
“Essa é uma oportunidade de colocar em destaque a obra da Orides, que sempre foi ofuscada pela vida dela, pela precariedade material e instabilidade emocional dela, que compõem uma dobradinha que costuma cobrar um preço bem caro quando é associada a mulheres”, disse Rita.
A homenagem coincide com o lançamento, pela editora Hedra, dos cinco livros publicados em vida pela poeta. Organizados por Ieda Lebensztayn, os volumes resgatam integralmente as obras originais e ampliam os textos críticos que as acompanham – análises originais de Antonio Candido, Davi Arrigucci Jr., entre outros, e novos textos de autores contemporâneos, como Viviana Bosi e Patrícia Lavelle.
Na onda da Flip, a Hedra ainda lança uma nova edição da biografia O Enigma Orides, de Gustavo de Castro, com material extra; um livro voltado ao público infantil, Pelos Olhos de Orides, de concepção editorial de Augusto Massi; e Conversas: Escritos e entrevistas de Orides Fontela, organizado por Ieda Lebensztayn, Mário Alex Rosa e Augusto Massi, com entrevistas, depoimentos, ensaios e poemas de Orides nunca publicados em livros – incluindo material veiculado no Suplemento Literário do Estadão.
“Difícil dizer o que ela pensaria da homenagem que agora a Flip lhe faz”, diz Castello. “Penso que ficaria vaidosa, é claro, mas não daria o braço a torcer, não demonstraria essa vaidade. Não porque fosse uma mulher blasé, mas porque de fato desconfiava de tudo o que viesse para encobrir seus versos. Para ela, as palavras – precisas, fulminantes, cintilantes – estavam sempre em primeiro lugar.”
Leia a entrevista de Orides Fontela a José Castello, publicada no Estadão em 1º de junho de 1996
Como você se sente depois da grande repercussão de Teia na mídia?
Eu me sinto razoável. E, nos dias de hoje, se sentir razoável já está bem bom.
Parece que Orides Fontela está aparecendo mais do que Teia. Isso é correto?
Tudo começou depois da célebre reportagem feita pela Veja, em que fui tratada não como poeta, mas como um “caso” humano e em que chegaram a falar mal de mim porque sou pobre. Foi ali que o folclore começou. Mas já estou cansada desse folclore. Eu não gosto disso.
Você se sente incompreendida?
Reclamam de Teia, dizendo que é um livro mais fácil que os anteriores. Mas essa foi minha intenção, eu quis me afastar do barroquismo. Reclamam, porque eu não falo de amor. Mas então não leram Homero….
Teia é um livro mais fácil que os anteriores?
Espero que sim. Eu quis chegar ao miolo das coisas. Já fiz duas leituras para auditórios de jovens e eles gostaram muito. Isso me deixou reconfortada. Mas, infelizmente, nossos especialistas ainda têm uma visão muito olímpica da poesia. Antes de Teia, eu cheguei a ser classificada de “poeta metafísica”. Agora, espero, fica mais difícil me enquadrar.
Essas opiniões a aborrecem?
Aborrecem, sim. Mas é a velha história: é melhor que falem mal, mas falem de mim. Eu preciso de dinheiro para viver. Minha vida é um retrato da vida dos aposentados no Brasil. E da vida dos poetas no País.
Foi muito difícil publicar Teia?
Desde o início, eu queria publicar pela Companhia das Letras. Pedi ao Augusto Massi que me ajudasse. É chique publicar pela Companhia das Letras. Pode ser uma infantilidade, mas era o que eu queria. Não consegui. Depois pedi ajuda à Marilena Chauí, que escreveu o prefácio do livro e encaminhou os originais à Brasiliense, à Ática e novamente à Companhia. Não deu em nada. Meu advogado, o Silvio Rodrigues, tentou a Estação Liberdade e a Paz e Terra. Nada dava certo e eu já estava desistindo. Encontrei, então, o Luis Fernando Emediato que, diante do escândalo feito pela Veja, quis apostar em mim. Na verdade, ele estava arriscando mais no escândalo do que em mim e estava certo, porque tudo isso pode me irritar, mas ajuda a vender.
Foi por isso, também, que você decidiu escrever um livro mais simples?
Eu queria ser mais enxuta, queria escrever poemas exemplares à moda de Brecht. Sei que isso não agrada, porque a moda hoje é o barroquismo. A moda é escrever como o Alexei Bueno. A moda é ser difícil. É um fenômeno sociológico e não adianta discutir com os fatos da sociologia.
Você decidiu escrever contra a moda?
Não quero ir contra ninguém, só quero escrever meus poemas. Essa guerrilha de poetas é divertidíssima, mas não desejo participar dela. Eu sou pequena, pobre e mulher. Isso já chega. As pessoas me veem como uma mulher que escreve uma poesia boa, mas coitada, não é do meio. Não tenho família, não tenho bens, não frequento os lugares chiques. É como se eu estivesse invadindo o Olimpo.
Podem achar que você esteja explorando o próprio sofrimento.
Isso é outra bobagem, outro mito romântico que deveriam esquecer. Teia é, de fato, meu livro mais sofrido, porque foi escrito em um período muito difícil de minha vida e essas coisas não podem ser escondidas. Há uma seção, O Antipássaro, em que estão apenas poemas do tipo bronca. Esse meu lado não aparece em livros anteriores e talvez surpreenda os críticos. Meu melhor livro é Alba e não tem sofrimento, eu o escrevi sem nenhuma dor.
Como você reage ao sofrimento?
Eu sou anti-romântica e não gosto de ser encarada como uma poeta que sofre. Não sei choramingar. Já fui chamada de estoica e isso eu aceito. No Brasil, o povo tem de ser estoico à força.
De que você precisa para escrever?
Não tenho rotina. Pertenço à família dos poetas inspirados, embora eu seja anti-romântica e isso esteja também fora de moda, mas não é culpa minha. No fundo, talvez eu seja romântica. É tudo espontâneo, eu vou anotando em cadernos, em livros de outras pessoas, em pontas de papel. Depois, deixo descansar por longo tempo. Mas o mais difícil é o momento em que sento para montar o livro.
Por quê?
É a hora de encontrar a estrutura. Eu começo meus livros com um poema-tema, que depois dá nome ao volume, e acabo sempre com um poema sobre o silêncio. Tenho uma visão matemática dos livros. Eu não gosto de confusão, porque estudei filosofia e me tornei uma mulher com a cabeça lógica. Levo um tempo enorme buscando alguma ordem, construindo a estrutura, porque sem ela não há livro.
Você é uma mulher metódica?
Sou metódica só na minha. Meu lado metódico só aparece na poesia. Fora dela, não existe.
Biografia e poesia estão sempre divorciadas?
O poema reflete o temperamento, a personalidade do poeta, mas não sua biografia. Quanto à biografia, ele pode refletir ou não, depende do poeta. No meu caso, não reflete. Meus poemas não têm nenhuma relação com meu cotidiano. Por isso, me irrito com as reportagens que, em vez de poesia, falam de mim.
Ninguém deve mais chamá-la de poeta metafísica?
Eu mesma ando afastada das coisas espirituais. Eu era zen-budista, mas abandonei a religião. Agora, estou pensando no assunto com mais distância. Os monges que eu conhecia morreram, a comunidade mudou e eu resolvi dar um tempo. Além disso, eu quebrei a perna e agora não posso mais me sentar na posição de lótus.
Você se entregou ao pessimismo?
Minha profissão de fé, hoje, é pelo saber, pelo conhecimento. Essa é a doutrina budista: o único mal é a ignorância, o único pecado é a ignorância. Está em meus poemas: “Sempre é melhor saber que não saber”. Se isso é pessimismo, não sei. Pode ser uma visão um pouco destrutiva, mas não é tanto quanto parece. É um pensamento radical que deseja chegar a alguma coisa, se é que existe alguma coisa para se chegar.
Como você se sentiu ao se tornar personagem do ‘Fantástico’?
Se há um mês me alguém me dissesse que eu ia aparecer no Fantástico, eu diria que o sujeito está louco. Acho que isso não é grande coisa, é folclore. O irônico é que em um país que tanta gente briga para aparecer, quem aparece seja eu, a poeta miserável.
O sucesso repentino lhe trouxe alguma vantagem?
Nenhuma, mas essas coisas não chegam a fazer mal. Duas coisas me fazem realmente mal: a falta de trabalho e a solidão. E são duas coisas muito difíceis de resolver. São duas coisas que destroem qualquer controle que eu possa ter sobre minha vida. O controle que eu tinha sobre minha vida acabou. Eu realmente estou confusa. Mas devo ser paciente e aguardar.
Com quais poetas e intelectuais você convive hoje?
Com nenhum. Eu costumava mostrar meus poemas a alguns críticos paulistas, mas hoje eles acham que eu facilitei, que me tornei popularesca e não se interessam mais em ler o que eu escrevo. Descobri o quanto estou sozinha na noite do lançamento de Teia, em um bar da Alameda Franca. Foi muito bonito, só que não foi literário, foi jurídico. Só havia advogados, todos levados pelo meu amigo Silvio Rodrigues. Não havia um só crítico, um só poeta.
Há algo que você possa fazer a respeito?
Nada. Eles acham que eu facilitei, que eu baixei de nível e me desprezam. Mas ser simples é direto é muito mais difícil do que ser barroco. Para ser barroco, basta ter alguma cultura livresca. Para ser simples, é preciso ser poeta.

