Por Gabriela Rosa
Assistindo aos desfiles de Alta-Costura que estão acontecendo em Paris, pude reforçar a percepção do quanto as roupas ultrapassam sua função utilitária e passam a ocupar um espaço próximo ao das obras de arte.
Em especial destaco o desfile da Schiaparelli sob a direção criativa de Daniel Roseberry, que transformou a arquitetura de Antoni Gaudí em linguagem têxtil, provando que, quando moda e arte dialogam, o resultado ultrapassa o vestir e entra para o campo da cultura.
Nesta coleção, Barcelona não serviu apenas de inspiração estética, tornou-se matéria-prima criativa. Os mosaicos irregulares, técnica emblemática de Gaudí, foram reinterpretados em milhares de flores bordadas manualmente.
As fachadas orgânicas da Casa Batlló aparecem traduzidas em volumes, curvas e superfícies que parecem vivas. Até a paleta de cores remete aos azuis, verdes, dourados e lilases que refletem a luz nas obras do arquiteto catalão.
A coleção nos lembra que a moda sempre conversou com outras formas de arte. Pintura, escultura, fotografia, literatura e arquitetura alimentam o imaginário dos grandes criadores há décadas. Quando um estilista observa um edifício, ele não vê apenas concreto. Vê ritmo, proporção, textura, luz e movimento, os mesmos elementos que compõem uma roupa.
É impossível falar dessa relação sem lembrar da própria Elsa Schiaparelli. Desde os anos 1930, a fundadora da maison italiana entendia que a moda poderia ocupar o mesmo espaço intelectual da arte. Suas colaborações com Salvador Dalí, Jean Cocteau e Alberto Giacometti romperam definitivamente a fronteira entre atelier e galeria.
Essa herança permanece viva nas coleções atuais. Daniel Roseberry não apenas preserva o espírito surrealista da marca, mas amplia seu repertório ao aproximá-lo da arquitetura, mostrando que a criatividade nasce justamente do encontro entre diferentes disciplinas.
Como consultora de imagem, costumo dizer que estilo não nasce do consumo, mas da cultura. Quanto maior o repertório visual, artístico e histórico, mais sofisticadas se tornam nossas escolhas.
Outro exemplo emblemático dessa temporada veio da Dior. Sob a direção criativa de Maria Grazia Chiuri, a coleção de alta-costura de Inverno 2026 nasceu de um diálogo direto com a obra da escultora e artista americana Lynda Benglis, conhecida por desafiar os limites entre pintura e escultura.
Em vez de simplesmente reproduzir estampas ou referências visuais, a Dior reinterpretou formas, volumes e texturas presentes nas obras da artista. Plissados metálicos inspirados em esculturas como Kissel e Siata transformaram tecido em arquitetura; os degradês e pinceladas coloridas remetiam às experimentações cromáticas de Benglis; enquanto leques bordados ganharam dimensão escultórica ao serem transportados para a passarela.
O desfile também estabeleceu um diálogo com a história da arte ao revisitar Gustav Klimt. Um dos vestidos reproduzia delicadamente a atmosfera etérea do retrato de Margaret Stonborough-Wittgenstein, demonstrando que a alta-costura continua encontrando na arte um repertório inesgotável de referências.

