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Os Indicados aos Emmys 2026

Por Ana Cláudia Paixão – Via MiscelAna

A lista de indicados ao Emmy 2026 saiu hoje, 8 de julho, e, como sempre, a primeira reação é procurar favoritos, ausências e surpresas. Quem entrou? Quem ficou de fora? Qual ator foi lembrado? Qual série perdeu força? Mas, neste ano, talvez a leitura mais interessante esteja menos nos nomes isolados e mais no mapa que eles formam. O Emmy 2026 não mede apenas a qualidade das séries exibidas entre 1º de junho de 2025 e 31 de maio de 2026. Ele também ajuda a revelar quais plataformas conseguiram transformar catálogo, campanha e conversa cultural em prestígio.

E, nesse sentido, a Apple TV talvez seja a grande história do ano.

Durante muito tempo, a plataforma foi vista como um serviço elegante, caro, seletivo e irregular. Tinha grandes séries, nomes importantes e produções de acabamento impecável, mas ainda parecia distante da força simbólica que a HBO construiu ao longo de décadas. Agora, essa percepção começa a mudar. Nas principais categorias do Emmy 2026, a Apple aparece não como promessa, mas como potência de prestígio.

Em Melhor Série Dramática, a plataforma colocou três títulos na disputa: Pluribus, Slow Horses e Your Friends and Neighbors. Não é pouco. Pluribus também levou Rhea Seehorn à indicação na categoria de Melhor Atriz em Série Dramática, enquanto Slow Horses garantiu Gary Oldman entre os indicados a Melhor Ator. A presença das duas séries confirma a força da Apple no drama adulto, autoral e bem-acabado, exatamente o tipo de produção que costuma construir reputação ao longo do tempo, sendo que Rhea entra como favorita para levar o prêmio.

a - Apple TV Divulgação - Apple TV Divulgação

Rhea Seehorn é a estrela de Pluribus, da Apple TV

Imagem: Apple TV Divulgação

Na comédia, o avanço é ainda mais evidente. Shrinking, Margo’s Got Money Troubles e Widow’s Bay aparecem entre as indicadas à Melhor Série de Comédia. Jason Segel concorre por Shrinking, Matthew Rhys por Widow’s Bay e Elle Fanning por Margo’s Got Money Troubles. Ou seja, a Apple não está apenas colocando uma série na conversa. Está ocupando espaço em várias frentes ao mesmo tempo. Sou suspeita por considerar Widow’s Bay uma das melhores séries do ano, então antecipo minha torcida e o favoritismo de Rhys na categoria.

O detalhe mais curioso é que essa consolidação acontece sem depender de The Morning Show nas principais categorias anunciadas. A série já rendeu prêmios e indicações importantes no passado, funcionando quase como um cartão de visitas da Apple diante da Academia. Agora, o prestígio parece vir de outro lugar: de um conjunto mais consistente de séries com identidade, ambição e acabamento.

É daí que nasce a tentação de chamar a Apple TV de “nova HBO”. A comparação faz sentido como provocação. A Apple parece ser hoje a plataforma que mais se aproxima da velha imagem da HBO como casa de prestígio: menos volume, mais curadoria, mais autores e uma confiança maior em séries adultas. Mas transformar essa ascensão em obituário da HBO seria precipitado e errado.

A HBO não morreu. Nem perto disso.

A própria lista de indicados prova o contrário. Em Melhor Série Dramática, a HBO Max aparece com The Pitt, The Gilded Age e A Knight of the Seven Kingdoms. The Pitt chega como uma das grandes forças do ano, com Noah Wyle indicado ao Melhor Ator em Série Dramática, um prêmio que já levou no ano passado. É o tipo de produção que parece feita para conversar com a Academia: drama adulto, elenco forte, execução clássica e apelo emocional. Como fã e especialista em The Gilded Age, estou contente que também tenha marcado presença, com Carrie Coon indicada entre as atrizes.A Knight of the Seven Kingdoms mantém viva a ligação da HBO com o universo de Game of Thrones, uma das marcas mais poderosas da televisão recente, conseguindo o que House of the Dragon ainda não alcançou: unanimidade de crítica e público.

E ainda há Hacks. Indicada novamente à Melhor Série de Comédia, com Jean Smart concorrendo como Melhor Atriz, a série representa aquilo que a HBO continua fazendo melhor: transformar uma comédia sofisticada, amarga e profundamente humana em prestígio. Em um ano de despedida, Hacks chega com a força acumulada de uma produção querida pela indústria e pela crítica. É a favorita em tudo.

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Jean Smart é a favorita do Emmy 2026 por Hacks

Imagem: HBO Divulgação

É verdade que o futuro corporativo da marca inspira dúvidas. A fusão com a Discovery já havia abalado a imagem de uma grife historicamente associada à televisão premium. O acordo anunciado para que a Paramount adquira a Warner Bros. Discovery adiciona outra camada de incerteza, ainda dependente de aprovações e desdobramentos regulatórios. Mas, criativamente, a HBO continua viva. A questão é se a HBO continuará tendo, dentro de estruturas empresariais cada vez maiores e mais instáveis, o espaço necessário para continuar sendo HBO.

A Netflix vive outro tipo de paradoxo. Há muito tempo deixou de ser azarão. É gigante, onipresente, agressiva em campanha e capaz de aparecer em praticamente todas as frentes da disputa. Neste ano, marca presença em Melhor Série Dramática com The Diplomat, em Melhor Série de Comédia com Nobody Wants This e domina parte importante da conversa em minissérie com The Beast in Me e Beef.

Nas categorias de atuação, a Netflix também aparece com força. Rufus Sewell concorre por The Diplomat, Claire Danes e Matthew Rhys (isso mesmo, ele está indicado a dois prêmios na mesma noite) foram lembrados por The Beast in Me. Carey Mulligan e Oscar Isaac aparecem por Beef. Jason Bateman entra por Black Rabbit, um thriller em que viveu um vilão. É uma lista robusta, com estrelas, prestígio e variedade.

Mesmo assim, a força da Netflix ainda tem uma natureza diferente. Ela não carrega exatamente a aura de curadoria da HBO, nem a imagem cada vez mais seletiva que a Apple tenta construir. A Netflix vence pelo tamanho, pelo alcance, pela insistência e pela capacidade de colocar muitos títulos em circulação ao mesmo tempo. Às vezes, parece uma plataforma de prestígio. Às vezes, uma máquina de volume. Muitas vezes, as duas coisas ao mesmo tempo.

A Amazon Prime Video, por outro lado, quase desaparece da conversa principal. Mesmo com dinheiro, alcance global e capacidade de atrair estrelas, a plataforma ainda não encontrou uma assinatura clara no Emmy. Tem ambição, escala e sucessos comerciais, mas raramente organiza a temporada de premiações ao redor de si. Em 2026, pelo menos nas categorias principais, parece mais espectadora do que protagonista.

Já a Disney joga em outro tabuleiro. A empresa não precisa do Emmy da mesma maneira que Apple e Netflix precisam. Seu poder industrial vem de franquias, cinema, parques, esportes, marcas familiares e de um ecossistema que vai muito além da televisão de prestígio. Ainda assim, quando entra na disputa, entra por várias portas ao mesmo tempo.

A força do grupo aparece menos no Disney+ puro e mais por meio de FX, Hulu e ABC. Paradise, do Hulu, está entre as indicadas a Melhor Série Dramática, com Sterling K. Brown concorrendo como Melhor Ator. The Bear, da FX, volta à disputa de comédia com Ayo Edebiri entre as atrizes. Love Story: John F. Kennedy Jr. and Carolyn Bessette, também da FX, aparece em minissérie, com Sarah Pidgeon indicada. Abbott Elementary, da ABC, segue firme em comédia, com Quinta Brunson novamente lembrada. Only Murders in the Building, do Hulu, também continua vivo, com Martin Short entre os indicados e presença em Melhor Série de Comédia.

É um império fragmentado, mas poderoso. A Disney talvez não tenha uma única identidade de Emmy, mas tem várias marcas capazes de chegar lá. FX, Hulu e ABC funcionam como braços diferentes de uma mesma estratégia: ocupar espaço sem depender de uma única plataforma ou de um único tipo de prestígio.

Entre as minisséries, a disputa também reforça esse retrato de forças espalhadas. All Her Fault, do Peacock, aparece ao lado de The Beast in Me e Beef, da Netflix, DTF St. Louis, da HBO Max, e Love Story: John F. Kennedy Jr. and Carolyn Bessette, da FX. É talvez a categoria que melhor mostra como o prestígio hoje está menos concentrado em uma única casa e mais distribuído entre plataformas que disputam atenção, estrelas e relevância cultural.

Nas categorias de variedades e reality, a reorganização das regras também merece atenção. A Academia uniu antigas disputas de talk show e séries de variedades roteirizadas em uma única categoria, agora chamada de Melhor Série de Variedades. Por isso, nomes como The Daily Show, Jimmy Kimmel Live!, Last Week Tonight With John Oliver, The Late Show With Stephen Colbert e Saturday Night Live aparecem juntos em uma disputa que já nasce diferente das edições anteriores. Sim, o favorito sempre é John Oliver.

No fim, o Emmy 2026 pode ser lido como um mapa da televisão em transformação. A Apple TV tenta se consolidar como a nova casa do prestígio. A HBO prova que ainda é cedo demais para escrever seu obituário. A Netflix mostra que continua enorme, embora ainda oscile entre curadoria e volume. A Amazon procura uma identidade. E a Disney joga, como sempre, em várias frentes ao mesmo tempo.

O Emmy nunca é apenas sobre quem fez a melhor série. É também sobre quem conseguiu parecer indispensável no momento certo. Em 2026, essa disputa não acontece apenas entre atores, episódios e personagens. Acontece entre marcas inteiras tentando convencer a Academia – e o público – de que o futuro da televisão passa por elas.

O 78º Primetime Emmy Awards acontece no dia 14 de setembro de 2026, uma segunda-feira, com Mariska Hargitay como apresentadora. Já começam as apostas.

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Imagem: Divulgação

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